quinta-feira, 14 de maio de 2009

5 Etapas para elaborar o PEDD


Você tem as ferramentas e o conhecimento necessário para elaborar o Plano Estratégico de Desenvolvimento Desportivo do seu município?

Muitos dos técnicos superiores de desporto que trabalham nas câmaras municipais portuguesas são confrontados com a necessidade de desenvolver um documento para o qual não possuem o conhecimento, ferramentas e informação suficiente. E no entanto têm de o fazer, muitas vezes, por conjunturas políticas de circunstância.

O resultado muitas vezes é um documento feito à pressa, pouco coerente, nada fundamentado e com pouca utilidade para além do breve período de vida na exposição pública que se segue à sua elaboração.

Num dos diversos encontros de formação em que tive a oportunidade de participar, conheci o “José Silva” (nome fictício). José é um técnico superior de desporto com formação de base em Ciências do Desporto que, depois de alguns anos de trabalho no sector do ensino, com contratos a prazo e alguma experiência de colaboração na organização de eventos desportivos, tem dois anos de experiência numa autarquia da região centro de Portugal continental.

José teve a oportunidade de, nesses dois anos, participar activamente no desenvolvimento de projectos de construção de instalações desportivas, organização de serviços desportivos à população, dinamização e apoio ao movimento assocativo desportivo e na definição de dois planos de actividades anuais. Com o aproximar das eleições, foi-lhe solicitado a elaboração de um Plano Estratégico de Desenvolvimento Desportivo para os próximos quatro anos. O prazo que lhe foi concedido para elaborar esse documento foi de dois meses.

O planeamento operacional a que José Silva estava habituado é muito diferente do planeamento estratégico necessário à elaboração de um documento desta natureza e as questões que me colocou centravam-se essencialmente em dois problemas: 1º Por onde começo? 2º O que posso fazer para que o resultado do meu trabalho seja efectivamente utilizado na actividade do pelouro de desporto?

Existem princípios e metodologias na elaboração do PEDD. Na minha opinião os princípios são os seguintes:

1º - O PEDD deve permitir que os técnicos e eleitos políticos tenham, ao seu alcance, conhecimento sobre a evolução futura dos grupos de interessados (ex: clubes desportivos, escolas, empresas, associações cidadãos, etc.) e sobre o sector do desporto (não se reduzindo ao nível macro político, económico, social, tecnológico e económico), utilizando uma abordagem que procure compreender os segmentos de clientes, as arquitecturas tecnológicas e as cadeias de valor neste sector;

2º - O PEDD deve permitir que o decisor (político, técnico, interessado) compreenda quais as implicações das suas decisões para o desenvolvimento do desporto no território;

3º - É fundamental que, no processo de elaboração do PEDD, todos os grupos de interessados (indivíduos ou organizações) sejam envolvidos e tenham a oportunidade de participar activamente;

4º - O PEDD deve ser o principal instrumento de inovação para o desporto no território, materializando am linhas de acção claras, as principais opções políticas e de gestão que criam um espaço desportivo inovador.

Para além destes princípios existe a necessidade de uma metodologia que ajude o José e centenas de outros técnicos superiores a estruturarem a elaboração de um PEDD.

Sugerimos as seguintes etapas:

Etapa nº 1 – Traçar o percurso

Deverão ser tomadas decisões iniciais em relação aos seguintes aspectos:

1º - Quem elabora o PEDD? Elaboração interna (com os recursos de que dispõe o pelouro do desporto), elaboração externa (com recurso a uma empresa, especialista ou organização) ou elaboração mista (em que existe uma partilha de responsabilidades na elaboração do PEDD)?

2º - Qual o orçamento/dedicação necessário? É fundamental negociar com a estrutura hierárquica o orçamento ou ocupação de tempo dedicado à elaboração do PEDD e os momentos de apresentação dos principais resultados desse trabalho recorrendo à elaboração de um planeamento prévio das actividades a desenvolver.

3º - Qual é o resultado esperado? Deve ser clarificado o mais detalhadamente possível que tipo de documento é que se pretende, qual o seu formato, como e quando poderá ser modificado e de que forma é distribuído e se torna um instrumento de trabalho “vivo” nas mãos dos principais agentes desportivos do território.

Etapa nº 2 – Realizar o diagnóstico

Nesta etapa procede-se a uma caracterização detalhada dos principais agentes humanos e não humanos com influência no processo de desenvolvimento desportivo, bem como o enquadramento institucional que envolve o território.

A caracterização da realidade desportiva do concelho, elaborando ou actualizando a carta das instalações desportivas artificiais e naturais, a análise do associativismo desportivo, a identificação e realização de um conjunto de entrevistas semi-dirigidas a diversos agentes com influência no processo de desenvolvimento desportivo (responsáveis políticos e técnicos, docentes de escolas do ensino básico e secundário, dirigentes e técnicos desportivos, empresários, etc.), é fundamental para fundamentar as opções da etapa seguinte.

Etapa nº 3 – Escolher a força condutora

Escolher a força condutora de uma autarquia nos seus serviços de desporto, significa identificar o aspecto onde ela terá de ser excelente no fornecimento desses serviços; poderá escolher uma classe de utentes, uma tipologia de instalações desportivas, os procedimentos de acesso à prática, a dinamização dos agentes desportivos, etc. Como não é possível ser excelente em tudo, é fundamental a autarquia ser clara na identificação de apenas uma força condutora.

A força condutora deve estar reflectiva da missão da organização. Partindo de uma análise e diagnóstico do contexto onde se insere, deverá reflectir o papel que deseja desempenhar nesse contexto específico, papel este que poderá estar pré-determinado pela sua especificidade constitutiva, mas que deverá sempre reflectir o posicionamento que deseja adoptar. Esse posicionamento que é o “propulsor” da força condutora da autarquia.

Etapa nº 4 – Visualisar a estratégia

Escolhida a força condutora, é necessário definir as estratégias adequadas e coerentes à concretização da missão da autarquia. Ao mesmo tempo deve ser trabalhada a forma como os principais agentes de desenvolvimento desportivo vão visualizar a estratégia e mantê-la sempre perto de si, garantindo que, no momento de decisão, as escolhas contribuem e estão alinhadas com a estratégia definida. A criação de um Mapa Estratégico em que se apresentam os principais objectivos e os programas e projectos que contribuem para alcançar os resultados esperados é uma boa solução que poderá ser utilizada (sob diferentes meios) para facilitar a visualização da estratégia.

Etapa nº 5 – Alinhar recursos e actividades

A definição de um Plano Operacional Anual permite identificar a coerência entre os objectivos estratégicos e as acções do Pelouro do Desporto da Câmara Municipal. A definição dos programas de actividade e os projectos propostos, devem ser coerentes e contribuir para o alcançar dos objectivos estratégicos. É necessário definir a ponderação com que os programas e projectos contribuem para cada objectivo estratégico.

Cada projecto deve ter um (e apenas um) responsável que, dessa forma, tem uma visão clara do seu contributo e da sua equipa para o sucesso na implementação da estratégia da autarquia, podendo ser proposta a ligação do resultado do projecto à avaliação profissional do técnico.

Não existe uma forma única e óptima de criar o PEDD. Utilizando os princípios e metodologia que aqui propomos, os técnicos de desporto que, tal como o José Silva, se vêm confrontados com a realização de uma tarefa complexa e trabalhosa poderão saber por onde começar e criar um documento vivo e sobre o qual se debruçam nas suas reuniões semanais e no trabalho do dia-a-dia.

Com um documento elaborado mediante estes princípios e metodologia, os serviços de desporto podem fugir à tendência natural de “apagar fogos” no desporto local e construir as bases para um desenvolvimento desportivo assente na inovação dos diversos agentes locais.

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